terça-feira, 12 de julho de 2011

OUTRAS COISAS...

Para manter a harmonia além do equilíbrio psicológico, não só meu mas dos meus caríssimos leitores decidi que, a cada besteirol postado, colocarei algo que cause uma reflexão de nível intelectual mais avançado. São as "outras coisas" do ócio criativo, o lado B do vinil. Espero que gostem deste conto que escrevi.




                               "EU E OS DEGRAUS"



Eu gosto de gente. Não foi difícil gostar dele. Pode parecer toleima minha. Meu amor, nem sei se posso classificá-lo assim, minha “paixonite” – talvez seja mais adequado – não foi vã, sem causa ou razão perante as circunstâncias. O que senti por ele foi a razão paliativa, um subterfúgio para fugir de mim mesma naquele momento. Sem melindres (não sou dramática) senti, debalde, em liça meus sentimentos. Não sabia nem mais minha própria identidade. Senti asco de minha estulta pessoa ao fitar o aro dourado em meu anelar esquerdo em contraste com minha palidez. Aro que me deu para que eu não me esquecesse de ti. Naquele dia eu quase o esqueci.

O sentimento algoz e pertinaz que julguei ser passageiro, perdurou até a manhã seguinte. Manhãs que duraram dias. Dias que se tornaram semanas. A situação estava fora do meu controle. Ludibriada já fantasiava ledos momentos ao lado dele. Não sou nenhuma huri, mas imaginei que ele também se apaixonaria calidamente quando me fitasse pela primeira vez. Foi assim comigo.

Sentia ânsia a cada angustiado abraço teu, ao sentir que percebias o meu olhar e pensamento distantes. Que sabias que eu ouvia as tuas palavras escutando outras melodias. Que cheirava a tua pele alvacenta sentindo outros aromas. Que o tocava me questionando se ele possuía as mesmas formas e texturas.

A primeira vez que sonhei com ele foi a três dias. Desde então, as sucessões de imagens me perseguem até em meu inconsciente. Surpreendo-me em meio a devaneios nas horas mais inconveniente do meu dia. Eu que me dizia matrona e auto-suficiente, me sentia criança indefesa e complacente.

À noite, teus olhos fulgiam aos meus com ternura. Os meus, dos teus, fugiam. O amor é como o ciclo da vida: nasce, cresce e morre. O meu por você nunca irá morrer.
Antes dos sonhos a situação era sofrível ainda. Meu coração célere faz meu corpo trepidar ao perceber que sussurro o nome dele enquanto desperto. Sinto desesperada e nervosa náusea. Fico grata por você não estar mais ao meu lado.

As pessoas ao meu redor percebem o que só você não vê. Perguntam-me se estou bem ao me verem ofegante, de olhos fechados às vezes. Ando pelas ruas, onde todos os cheiros se misturam em um só. O sinto cada vez mais perto como se a qualquer momento fôssemos nos esbarrar ao dobrar uma esquina qualquer. O ar é denso, quase sólido. Sinto o seu peso sobre meu corpo. Suspiro sem alento, sem salvação ou redenção.

Chego à portaria de um majestoso edifício. Duas colunas de mármore branco emolduram a guarita onde fica o porteiro. Ele me sorri e, em seu olhar risonho, sinto a condenação que vejo em todos ao meu redor. Antes que eu tenha a chance de dizer qualquer coisa ele abre o portão e faz um gesto para que eu entre, como todas as outras vezes. Eu mal o encaro. Talvez me falte coragem. Faz um sinal com a cabeça como se indicasse que, em algum lugar daquele suntuoso conjunto residencial, houvesse alguém à minha espera. Entro apressada fingindo não perceber o seu olhar malicioso.

Subo as escadas para prolongar os momentos que antecedem o nosso encontro. Meu coração pulsa como se quisesse romper o esterno e se libertar do cárcere em que o mantenho. É mais um de meus prisioneiros. Ele acelera à medida que meus passos diminuem. Subo a interminável escadaria e já não existe o tempo. Nem eu, ele ou você.
Não existe mais nada além de mim e os degraus.



 Por Amanda Nascimento

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Indico

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  • C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor (filme) - Jean-Marc Vallée
  • E claro que você sabe do que estou falando (livro) - Miranda July
  • Eu, voce e todos nós (filme) - Miranda July
  • http://galeriaexperiencia.com.br/blog/
  • La Piel que Habito (filme) - Almodóvar
  • Manhatam (filme) - Woody Allen
  • MAUS (livro/HQ) - Art Spilgman
  • Memórias do Subsolo (livro) - Dostoiévsky
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